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Ficção científica e IA: o erro de ler tecnologia errado

02 de setembro de 2026·6 min de leitura·Diego Horvatti

Alguém já te vendeu um sistema dizendo que ele ia "resolver tudo"? Meses depois, o time inventou uma planilha paralela pra dar conta do que o sistema não faz. A promessa era grande. A realidade veio pequena e cara. Esse padrão tem uma raiz curiosa: boa parte da indústria de tecnologia leu ficção científica e IA como catálogo de produto, não como aviso. A historiadora Jill Lepore chamou os líderes do setor de "leitores ruins". Ela tem razão, e isso afeta direto o software que você contrata.

O que significa "ler ficção científica errado"

Frankenstein não é um tutorial de como criar vida. É um livro sobre um cara que cria uma coisa e foge da responsabilidade. Blade Runner não é um pitch de androides. É sobre o que sobra de humano quando tudo vira produto.

Só que uma parte de Silicon Valley pegou essas histórias e extraiu delas a máquina, jogando fora a moral. O resultado aparece no vocabulário dos lançamentos: "superinteligência", "vamos resolver a morte", "isso vai mudar a civilização". Aí você abre o produto e é um chatbot que erra o CEP.

O problema não é o exagero em si. É que o exagero vira modelo de negócio. Quem promete transformar a civilização não precisa provar que reduziu seu custo por atendimento em 12%. A régua some.

Por que isso chega até a sua empresa

Você não compra manifesto. Você compra ferramenta. Mas a ferramenta vem embalada no manifesto.

Na prática, isso aparece assim:

  • Roadmap de ficção. Você fecha o contrato pelo que "vai ter no Q3". O Q3 chega, o recurso não.
  • Preço ancorado no futuro. O plano custa como se a IA já fizesse o trabalho de três pessoas. Ela faz o trabalho de meia.
  • Dependência escondida. Seus dados, seus fluxos e seu histórico ficam num sistema que muda de rumo quando o fundador muda de sonho.

Vi isso de perto num cliente de serviços. Assinaram um SaaS de atendimento com IA por R$ 2.400 por mês, prometendo "resolver 80% dos tickets sozinho". Depois de quatro meses, a taxa real de resolução automática era 19%. E o time gastava tempo revisando o que a IA respondia errado. O custo total subiu, não caiu. O software funcionava. A promessa é que era ficção.

Quem vende o futuro raramente é cobrado pelo presente.

O ponto de Lepore que interessa a quem gerencia

Lepore fala de democracia, e o argumento dela é sério: quando um punhado de empresas decide o que é o futuro e trata isso como inevitável, as pessoas param de sentir que têm escolha. "É assim que vai ser" encerra o debate antes dele começar.

Traduza para dentro da sua empresa. Quando o fornecedor diz "todo mundo já está migrando para isso", ele está fazendo a mesma jogada em escala menor. Inevitabilidade é uma técnica de venda. Funciona porque cansa.

Você tem escolha. Sempre teve. A pergunta certa não é "isso é o futuro?". É "isso resolve o meu problema de terça-feira de manhã?".

Como avaliar uma ferramenta sem cair na história bonita

Um roteiro curto que uso quando um cliente me pergunta se deve assinar algo:

1. Peça o número, não a visão. "Quanto isso reduz do meu tempo por pedido?" Se a resposta for adjetivo, é sinal ruim. Se for "não sabemos, depende do seu volume", é sinal bom. Honestidade dá menos medo que entusiasmo.

2. Teste com o seu caso mais chato. Não com o exemplo do demo. Pegue aquele pedido com três exceções, cliente que pede nota fiscal separada, entrega parcial. É ali que a ferramenta mostra o tamanho real.

3. Pergunte como você sai. Exportar dados é possível? Em qual formato? Quanto tempo leva? Se a saída for difícil, o preço vai subir. Isso não é pessimismo, é como o modelo funciona.

4. Defina o prazo de julgamento antes de começar. Sessenta dias. Métrica escrita. Se não bateu, cancela sem drama. Sem isso, todo software vira permanente por inércia.

5. Separe o que é software do que é processo. Muita coisa que as pessoas compram como ferramenta é, na verdade, uma decisão que ninguém quis tomar. Nenhum SaaS resolve "não sabemos quem aprova o desconto".

IA serve, sim, mas para tarefas do tamanho certo

Nada disso é anti-IA. Eu uso IA todo dia e ela me poupa horas reais.

O que funciona é chato de escrever num release. Coisas assim:

  • Classificar e-mail de entrada em três categorias, com regra clara pro que a IA não tem certeza.
  • Transcrever reunião e extrair as decisões, com uma pessoa revisando em dois minutos.
  • Preencher o rascunho de uma proposta com base em dados que já estão no seu sistema.

Cada uma dessas economiza de 20 minutos a duas horas por semana. Não muda a civilização. Muda a sua sexta-feira. Num cliente pequeno, automatizar só a triagem de e-mails cortou cerca de seis horas por semana de trabalho manual. Custo de operação: menos de R$ 100 por mês em API.

A diferença entre isso e a promessa grande é o escopo. Tarefa pequena, entrada previsível, saída verificável. Quando a tarefa é grande e vaga, a IA parece mágica na demo e vira retrabalho na produção.

O antídoto é ler direito

Ler bem, no sentido de Lepore, é aguentar a ambiguidade. É notar que a história tem contexto, custo e consequência. É não pular direto pra parte legal.

Aplicado a software, ler bem é:

  • Ler o contrato até a cláusula de reajuste.
  • Ler o gráfico de uso do seu próprio sistema antes de trocar de fornecedor.
  • Ler a cara do seu time quando você anuncia a nova ferramenta. Aquele silêncio diz muito.

Tem uma ironia boa aqui. O setor que promete inteligência artificial poderia usar um pouco mais da natural. Ler com atenção, perguntar de novo, aceitar que a resposta talvez seja "não precisa".

Minha opinião, sem meio-termo: a maior parte das empresas que quer "adotar IA" precisa, antes, arrumar três processos manuais. É menos empolgante e dá muito mais dinheiro. O software bonito em cima de um processo bagunçado só deixa a bagunça mais rápida.

Comece pelo problema, não pela ferramenta

Se você está avaliando alguma coisa agora, faça o exercício invertido. Em vez de "o que essa ferramenta faz?", escreva em uma frase o problema que te incomoda. Sem jargão. Tipo: "levo três dias pra responder orçamento". Depois, procure a menor coisa que resolve isso. Às vezes é IA. Às vezes é um formulário e um modelo de e-mail.

É esse tipo de conversa que eu gosto de ter antes de escrever qualquer linha de código. Se quiser trocar ideia sobre o que faz sentido no seu caso, dá uma olhada em como eu trabalho.

Resumo para o LinkedIn

Um cliente meu assinou um SaaS de atendimento com IA por R$ 2.400 por mês. A promessa: "resolve 80% dos tickets sozinho". A realidade, quatro meses depois: 19%.

O software funcionava. A promessa é que era ficção.

Silicon Valley leu ficção científica como catálogo de produto, não como aviso. Frankenstein virou tutorial. O resultado chega até você embalado em "superinteligência" e "isso vai mudar a civilização".

Aí você abre o produto e é um chatbot que erra o CEP.

Não sou anti-IA, uso todo dia. Só que o que funciona é chato: triar e-mail, extrair decisão de reunião, preencher rascunho. Num cliente pequeno, só a triagem cortou seis horas por semana com menos de R$ 100 de API. Não muda a civilização, muda a sua sexta-feira.

Antes de perguntar "o que essa ferramenta faz?", escreva em uma frase o problema que te incomoda. Sem jargão. Se quiser trocar ideia sobre o seu caso, chama aqui.

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